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Deixa eu te contar

Quem me dera Ser simples como um número Feliz como uma soma Decidida como uma subtração Quem me dera Ser tantas Compartilhar na divisão Me triplicar na multiplicação Quem me dera Que a vida tivesse respostas exatas Que os problemas viessem com fórmulas Que as teorias já fossem sólidas Mas se até os números Têm dízimas periódicas E se até a calculadora Às vezes desiste de calcular Quem sou eu  Pra querer simplificar? Eu sempre fui mesmo De preferir sonhar E sonhos Não são matemáticos Nem exatos Nem possivelmente contabilizados Sonhos  Se forem pra contar Exigem outro tipo de conta Eu chamo de rimar
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Ânsia

Sabe quando você escova os dentes E num descuido Acerta um ponto Desconhecido Você não sabe como Nem quando Aquele golpe te acertou E apenas reage Como se fosse colocar tudo pra fora Como se fosse a hora Como se fosse expulsar Algo sem nem saber o que será Sabe quando você sente Que precisa escrever Que precisa falar Ainda que não saiba o quê Você deseja gritar? Pode parecer diferente De quando escova o dente Mas essa urgência de expulsão Pode ser ânsia ou inspiração

Tudo é político

Tudo é político A rima que eu faço O grito que eu calo O X que eu marco É político escolher privatizar É político deixar destruir É político enganar É político não investir Mas também é político Não furar a fila do pão Boicotar apoiador da escravidão Priorizar a educação Tudo é político A roupa que eu visto O produto que eu não compro O influenciador que eu sigo É político fomentar a dor Inibir outras formas de amor É político queimar as memórias Tentar inverter a história É tudo político Inclusive a omissão Vai deixar o caos continuar Ou finalmente vai dizer NÃO?

Eu sei

Eu sei Tudo que já vivi Guardo na memória O quanto senti Eu tenho ciência Do tamanho da emoção Eu sei como é Abrir mão da razão Eu já me senti Maior que a imensidão Eu já caí Num infinito sem chão E depois de tudo Do extremo e do profundo Qualquer coisa parece pouca Meu coração ficou mudo Ele continua batendo E seguindo E vivendo Mas ele não grita mais Tem um tempo que ele sussurra Quando encontra calmaria Fica feliz de pelo menos Não sofrer de agonia Mas ele também queria Poder gritar de felicidade Queria informar o mundo Da sua grande novidade Mas novidade não há Nem houve há um bom tempo Esse coração já não é Assim leve como o vento Mas eu sei Aqui dentro de mim Que algo vai fazer Bater forte assim Eu sei Que pode não ser agora Esse coraçãozinho se prepara Pra quando chegar a hora

Eu sinto sempre

Num dia Eu me incomodei  Por simplesmente me incomodar Como se tivesse obrigação de seguir em frente Como se tivesse ultrapassado limites Do tempo e do coração Como se não tivesse mais direito De sentir o que sinto Como se não tivesse opção Eu não tenho certeza dos motivos Talvez seja uma mistura de tudo Grande confusão Talvez nem seja pelo que vem de fora Mas apenas pelo que espelha E quando me vejo nesse reflexo Me enxergo perdida Parada e vencida Num dia Eu me senti mal Por constatar que ainda sentia Mesmo sabendo que sempre fui De sentir muito E no outro dia Eu não senti nada E ao mesmo tempo Me senti aliviada Não sei o que vem em frente Mas continuo seguindo Ainda que devagar Mesmo que às vezes pareça parada Os pés estão na estrada E me parece Que estou finalmente Livre pra sentir Novamente

Eu voltarei a escrever

Soube hoje pela manhã que ontem foi dia do escritor. E precisava escrever e, principalmente, precisava vir aqui falar isso, depois desse jejum antiestratégico de alguns meses. Eu não sou uma escritora profissional – não vivo disso e nunca tive qualquer lucro com a escrita – mas emocional. Eu escrevo quando algo me desperta emoções, quando eu quero despertar emoções. E eu parei de escrever porque as emoções que eu podia catalisar – no meio de tanta dor e desespero, no auge da segunda onda da pandemia – não eram boas. Não quero ser um roteador de angústias e sentimentos ruins. A vida tem sido esquisita há um bom tempo: isolada do mundo, das pessoas queridas, dos grandes e bons momentos. Nada acontece aqui dentro. Lá fora, o mundo parece querer acabar. Me divido entre o tédio de não ter o que contar e o medo de assistir, de longe, o que pode acontecer. Parei de escrever. Mas escrever também tem sido a minha válvula de escape há anos. Eu escrevo sobre despedidas, partidas, dores, amores,

Imortal

Me conta o motivo das suas olheiras Me mostra a foto que guarda na carteira Me indica seu livro de cabeceira Me revela a sua caixinha de lembranças Me conta dos calos das suas andanças Se abre sobre aquele trauma de infância Me pede sigilo Te ofereço segurança Todos os seus segredos Vão comigo pro túmulo Suas mágoas e rancores Seus casos e amores Tá tudo guardado Enterro a chave do cadeado Eu quero saber Pra entender você Eu quero entender Onde vou me meter Eu quero me assegurar De que também é seguro Andar com você Eu quero compreender Aprender detalhes sobre você Seu contexto Sua cultura Seus planos Metas futuras Me deixa observar Esses tantos sinais Que fazem das costas Constelação Me deixa admirar O degradê dos seus olhos Perfeição Me deixa imortalizar Cada pedacinho de história Cada cantinho de sensação Vou fazer uma colagem de memórias Guardar pra recordação Já sei que o amor não demora Me deixa eternizar a paixão